“Ipanema sempre será Ipanema”
Na missão de saber (e contar) mais sobre o lifestyle de Ipanema, conversamos com o surfista Marco Antônio também idealizador e responsável pelo site Pier de Ipanema. Conhecido como Coyote na época que o Pier (1970-73) era o lugar de se fazer história, ele afirma que “Ipanema sempre será Ipanema.” A foto que ele nos cedeu para ilustrar este post é autoria de Fedoca, figura também fundamental nas ondas dessa história.
Como foi o início da sua história com o Pier?
Eu morava em Copacabana, de frente para o atual Othon Palace Hotel, na rua Xavier da Silveira, esquina com av. Atlântica. Vi o hotel ser construído. Como nem sempre as ondas eram boas em Copacabana, o jeito era ir para Ipanema. Foi então o surf que me levou a Ipanema. E lá chegando, a visão do Pier me marcou muito. Talvez seja essa a razão da minha fixação com esse point, era uma imagem indescritível. Essa foto (abaixo) é uma das que mais me tocam, talvez por se parecer com a imagem que vi naquele dia. Era um dia chuvoso, o mar enorme, perfeito e a praia vazia por causa da chuva e da hora. Meu dia-a-dia, era acordar antes do sol, pegar a prancha, correr até a casa de meu amigo Dadá (assassinado aos 18 anos numa chacina), e juntos percorrer a av. Atlântica, Francisco Otaviano até o Pier, também sempre dávamos uma vistoriada na praia do Diabo antes de decidir aonde cair. Isso era todos os dias, com sol, chuva, tempestade. Saíamos do mar em tempo de chegar em casa, tomar um banho, almoçar e ir para a aula. Isso quando o mar não estava bombando, que aí a aula ficava para outro dia.
Quais são as figuras lendárias daquele período?
São muitos conhecidos: Rico, Peti (Menino do Rio), Ricardo Bocão, Ceceu, Zeca Proença, Marcelo Kaneca, Tito Rosemberg, Maraca, Vanderbill, Mudinho, Pepê… É muita gente e ficaria bastante extenso falar de todos, mas no site do Pier de Ipanema estaremos contando as histórias de cada um. Tem algumas curiosidades como o estilo inconfundível do Daniel Sabbá (que surfa como se estivesse ligado numa tomada tomando um choque de 200 mil volts, o Monalisa que curtia usar o short florido havaiano moda na época) bem baixo, exibindo ousadamente alguns fios de cabelos que escandalizavam as mamães com suas “cocotas” no calçadão. Era um tal de virar a cara horrorizadas… Mas sempre esticando um olho… Bons tempos…
O que você acha que ainda ficou daquela época na Ipanema de hoje?
Ipanema sempre será Ipanema. Faça o que fizerem, a essência permanece. Claro que não é a mesma Ipanema. Como diria o I Ching: “Nunca as mesmas flores, mas sempre a primavera.” Fazíamos as mesmas coisas que os jovens fazem hoje. Acordar cedo, ir a praia, pegar onda, encontrar a galera, jogar conversa fora, paquerar, muitas festas, barzinhos, mas havia algo diferente… Refletindo , cheguei a conclusão qu não éramos conduzidos ou empurrados pela vida, como vejo hoje os jovens (claro que nem todos). A vida nos levava sim, como é de sua natureza, mas havia uma cumplicidade entre nós. Essa palavra para mim resume o que representou o Pier de Ipanema: imntensidade. Fomos intensos e a vida foi intensa conosco. E talvez por isso o período Pier de Ipanema tenha sido tão curto. Será a intensidade efêmera ?
Até hoje vocês se reúnem, certo? Há um clima de nostalgia do tipo “naquele tempo era melhor”?
Com a criação do site, ficou mais fácil reunir a galera. Tivemos 2 encontros na praia do Arpoador, uma festa na boate Casual em Ipanema, com show dos Piratas do Rio (comandado pelo legendário Zeca Proença) e uma festa no “Parada da Lapa”, animada pelo DJ Pierre, com show da Bolha e Grupo Soma, exibição do filme “1972″ e do curta “Memórias do Pier”, exposição de fotos de Fedoca, Sérgio Leandro, KKU e Mac Mac. As fotos podem ser conferidas no site em http://www.pierdeipanema.com.br/assuntos/festa. Com relação ao clima de nostalgia, rola muito mesmo. Você escuta coisas do tipo: “nós erámos felizes e sabíamos disso…” ou “nós somos privilegiados por havermos vivido aqueles anos setenta no Rio e em Ipanema-Copacabana”
E o seu projeto www.pierdeipanema.com.br surgiu como?
O Pier nunca saiu de minha cabeça. Chegei a ser chamado pelo Celsinho de Mr. Pier. Que honra! Desde o início da internet pensei em colocar uma página falando sobre o Pier, porém achava que as histórias não iriam interessar mais que meia-dúzia de “velhos surfistas gagás”. O tempo passou e com a existência do Orkut, criei sem muita pretensão uma comunidade e atráves dela foi possível reencontrar vários frequentadores, amigos e pessoas que não viveram mas tinham curiosidade em conhecer as histórias. Fotos eram enviadas para meu email e eu precisava de um espaço para publicá-las, já que naquela época o Orkut permitia apenas algumas poucas fotos. Como assinava o Uol, criei um fotolog: http://pierdeipanema.nafoto.net/ que fez sucesso em pouquíssimo tempo. Resolvi então criar um site, que foi ao ar no dia 19/11/2006, onde poderíamos ter fotos, áudios e textos.
Você ainda surfa?
Vai fazer 2 anos que vendi minha prancha e desde então não peguei uma ondinha. Como trabalho com desenvolvimento web e em casa, acabei deixando o trabalho tomar conta de meu tempo. Isso culminou com um afastamento temporário do computador para repensar a vida. Com isso reduzi o trabalho, organizei minhas atividades e agora o tempo sobra para voltar as ondas. O próximo passo é encomendar uma nova prancha. Meu plano é voltar a ativa ainda no primeiro semestre de 2009. Que fique registrado!






